sábado, 3 de março de 2012

O sonho de John.

Tava fuçando os arquivos aqui do blog e achei um rascunho de 25/11/11! Ai resolvi terminar o conto.

O Sonho de John.

Como Sr. Breuer antes, também eu, John Foster, Escrevente da Mui Honorável Companhia da Índia Oriental nesta cidade de Calcutá esquecida de Deus, tive um sonho; e me senti tão abalado quando minha égua Estrela ficou manca... E para não esquecer esse sonho vou logo escrevê-lo.
Quando o baile do governador geral acabou (todo ano ele da um desses em novembro), fui para o meu quarto, que quase abre pra esse riacho encolhido, eu um tanto quanto fora de mim. Bêbado, mas o vento fresco da noite melhorou um tanto meu estado; e me lembrei que se eu não havia passado lá muito bem de saúde nos ultimos meses, todos aqueles frangotes que vieram no navio comigo estavam há um mês plantados para a Eternidade em um terreno. Por isso agradeci a Deus por entre a névoa por estar vivo pelo menos até que março voltasse. Na verdade, nós que ainda estamos vivos nos divertimoos muito aquela noite nas rampas do Forte agradecendo a gentileza da ProvidÇencia - se bem que as nossas piadas não eram espirituosas e nem eram das que eu gostaria que minha mãe ouvisse.
Quando despenquei na cama e os vapores de bebidas haviam se dispersado um pouco, não pude dormir porque milhares de coisas que deviam ficar quietas acharam de passar por minha mente. Primeiro (e fazia muito tempo que eu não pensava nela) o rosto de Amélia Duncan deslizou pelos pés da cama como se fosse uma pintura em quadro; de tão real parecia que ela estava mesmo ali. Depois me lembrei de quando ela me empurrou para este país excomungado para ficar rico e poder casar logo com ela, depois me lembrei de quando ela pensou melhor - ou pior talvez - sobre o compromisso e se casou com Tom Sanderson apenas três meses após o meu embarque. De Amélia desviei meu pensamento para Madame van de Manen, mulher alta e olhos violeta, que veio da Comissaria Holandesa de Chinsura e pegou todos os rapazes daqui, e também alguns comissários, pelas orelhas. É verdade que algumas senhoras de Calcutá disseram que ela nunca teve marido nem nada parecido; mas as mulheres, mormente as que levam vida assentada, são muito cruéis com as outras. Além do mais, Mme. van de Manem era muito mais bonita do que todas elas. Ela foi muito gentil comigo na festa do Governador Geral, tanto que todos me olhavam como um preux chevalier (Cavaleiro valente), dela uma tradução para uma palavra muito pior. Agora, se eu ligava a mínima para essa Mme. van de Manen eu não sabia, e tempos depois ainda não sabia; mas o meu aprumo, e a destreza no manejo do sabre, que ninguém em Calcutá podia igualar, valeram-me o afeto da madame. Então posso dizer que a gostava.

Quando afugentei do pensamento aqueles olhos cor de violeta, meu juízo indagou por que motivo, afinal, a segui; então percebí que o ano vivido nesta terra havia queimado e torrado de tal maneira a minha mente com as labaredadas de tantas paixões e desejos malignos que envelheci dez meses para cada um que passei na escola do Diabo. Nesse ponto pensei em minha mãe e me senti muito penitente: na minha mente vacilante e pecadora fiz mil juras de me emendar - ai de mim, todas rompidas sistematicamentes. Amanhã vou começar a viver corretamente para sempre, digo a mim mesmo. Dou um sorriso tonto (a bebida ainda está agindo) ao pensar nos perigos de que escapei; faço castelos e mais castelos nas nuvens, onde a imagem de Amélia Duncan, com olhos violetas e a voz de Mme. van de Manen, é sempre Rainha.

Por fim uma bela e magnífica coragem (por certo nascida da vinha Madeira de Mr. Hastings) brota em mim, até ficar parecendo que eu posso ser Governador Geral, Nababo, Príncipe, que sei eu, até o Grão-Mogol, pelo simples ato de querer. E então, dando os primeiros passos bobos e sem rumo para entrar no seu novo reino tropeço nos criados que estão dormindo do lado de fora, eles gritam e correm de mim e chamam Céus e Terra para verem que ali está John Foster, Amanuense a serviço da Companhia, o destemido. Aí, vendo que nem a Lua nem a Ursa Maior se interessam por aceitar o meu desafio, deito-me denovo e parece que durmo. Pelas tantas sou acordado por minhas últimas palavras repetidas duas ou três vezes e vejo um bêbado no quarto, com certeza vindo da festa de Mr. Hastings, pensei. Senta-se nos pés da cama como se fosse a cama dele; e na medida em que pude, notei que o rosto do homem parecia-se com o meu, só que mais velho, exceto qundo mudava para o do Governador Geral ou para o de meu pai. Mas isso me pareceu natural devido a muita bebida. Fiquei tão irritado com essa entrada intempestiva que o mandei sair. Ele não respondeu a minhas palavras pouco corteses; apenas disse pausadamente, como se revolvesse na boca alguma coisa gostosa: "Amanuense a serviço da Companhia, e destemido." De repente se cala. Depois, virando abruptamente para mim, diz que um de meus lados pode não ter medo de homem nem do demônio; que eu era um jovem valente e provavelmente, se vivesse para tanto, poderia chegar a Governador Geral. Mas por tudo isso (penso que ele se referia aos ventos e azares de nossa vida mutável nessa parte do mundo), eu precisava pagar o preço exigido. Nessa altura, estando eu um pouco mais sóbrio e ja bem acordado do primeiro sono, resolvi encarar o assunto como brincadeira de bêbado. Assim, disse em tom jocoso: "E que preço devo pagar por mês por este meu palácio de quatro metros quadrados e por meus cincos precários pagodes? O diabo carregue você e sua piada. Já paguei o dobro do preço em ressaca." O homem se vira de frente para mim, e pude ver ao luar todos os vincos e rugas do seu rosto. Até minha embriaguez se evaporou, como já vi as águas dos nossos grandes rios sumirem em uma noite. E eu, John, que não tinha medo de ninguém, senti um pavor mais terrível do que já foi sentido por qualquer mortal.
Porque o rosto daquele homem era o meu rosto, porém castigado por pisadas de doenças e marcas de má vida - como uma vez estando eu (Deus que me ajude!) muito bêbado mesmo, vi o meu rosto todo branco, desarrumado e envelhecido, quando me olhei num espelho. Acho que qualquer outro homem teria sentido mais pavor do que eu, porque não sou falto de coragem

Depois de ficar algum tempo deitado quieto, suando e com a mente confusa, desejando que alguma coisa me acordasse daquele sonho terrível (eu sabia que era sonho), o homem repetiu que eu precisava pagar o preço; e logo depois, como se o pagamento tivesse de ser feito em pagodes e rupias recém-cunhadas: "Que preço vai pagar?" "Pelo amor de Deus me deixe, seja você quem for", respondi. "Desta noite em diante vou me corrigir." Ao que ele respondeu, sorrindo de minhas palavras, mas sem dar sinal de as ter ouvido: "Eu até posso poupar um jovem fanfarrão como você de muitos solavancos fortes que vai erncontrar em sua vida nas Índias; porque" - e nesse ponto ele torna a me encarar - "não há recuo."
Com todo esse palavreado desconexo, que eu não conseguia entender, fiquei de pé atrás esperando a continuação. Com toda a calma ele voltou a falar: "Dê-me a sua confiança no ser humano." Com isso percebi que o preço seria alto. Não duvidei que ele podia tirar de mim tudo o que quisesse. Minha cabeça ficou logo limpa de tudo que eu tinha bebido, tal o terror que senti e que me acordou completamente. Aí eu o enfrentei sem medir palavras; disse aos gritos que eu não era o sujeito totalmente mau que ele supunha, que eu confiava em meus semelhantes desde que fossem dignos de minha cofiança. "Não é culpa minha", eu disse, "que metade deles sejam mentirosos e a outra metade mereça ter a mão cortada. E mais uma vez peço que me deixe." Calei-me, receando ter soltado a língua além da conta, mas ele não tomou conhecimento do que eu disse; apenas tocou de leve com a mão em meu peito esquedo, e logo senti o frio nessa parte. Por fim ele disse, novamente sorrindo: "Dê-me sua confiança nas mulheres." Dei um pulo na cama como se tivesse levado uma ferroada, pois pensei em minha querida mãe na Inglaterra, e por um momento achei que minha confiança nas melhores criaturas de Deus jamais seria tirada de mim, nem mesmo seria abalada. Depois, com aqueles olhos duros que eram Meus fincados em mim, pensei pela segunda vez em amélia ( a que me deu a tábua e casou com Tom) e Mme. van de Manen, a quem o preço diabólico me fez acompanhar, e achei que essa era pior do que Amélia, e eu pior do que todas - porque com todo o trabalho da minha vida a fazer eu ainda tinha que desfilar dançando pela passarela varrida e enfeitada pelo diabo para encontrar lá no fim me esperando o sorriso de uma mulher frívola. Refleti que todas as mulheres do mundo eram como Amélia ou como Mme. van de Manen (e têm sido para mim desde então) e isso me levou a tal extremo de raiva e desgosto, que senti uma alegria indescritível quando Minha mão tocou novamente meu peito esquerdo e deixei de me preocupar com essas bobagens.

Ele ficou um tempo calado, e decidi que se ele não fosse logo embora eu ia acordar. Mas ele volta a falar, e muito maciamente diz que eu era idiota por dar importância às bobagens que ele tirava de mim; e que antes de ir embora ele só me pediria mais umas bobagenzinhas outras que nenhum homem, e mesmo nenhum garoto, se interessaria por conversar nesse país. E com isso tirou do fundo do meu coração, por assim dizer, o tempo todo olhando-me na cara com Meus próprios olhos, tudo o que restava de minha alma e de minha consciência de jovem. Isso foi para mim uma perda muito mais tenebrosa do que as duas sofridas antes; porque apesar de (valha-me Deus!) eu ter me afastado bastante dos caminhos de um viver decente ou piedoso, ainda restava em mim (relevem ser eu mesmo quem o diz) uma certa bondade de alma que, em meus ataques de sobriedade (ou de doença), me levava a arrepender muito de tudo o que eu havia feito antes do ataque. Isso perdi completamente, e no lugar ficou outra frieza mortal de alma. Como disse antes, não sou ágil de pena, por isso receio que o que acabo de escrever não seja entendido de imediato; mas há momentos na vida de um jovem em que, em consequência de um grande desgosto ou de um grande pecado, o que existe de jovem nele se queima e vira cinzas que o vento leva, e com um passo ele entra no estado mais aflitivo de homem - e da mesma forma que nosso escancarado dia indiano muda em noite sem o cinzento do crepúsculo para temperar os dois extremos. Talvez isso ajude a entender o meu estado se se lembrar que o meu tormento era dez vezes maior do que o encontrado por qualquer homem no curso normal da natureza. Naquele momento não pensei na transformação ocorrida em mim, e numa única noite; mas depois pensei muito. "Paguei o preço", eu disse com os dentes batendo porque me sentia gelado. "e o que vou receber?" Já era quase dia, e Eu começava a empalidecer e a afinar à luz branca do oriente, como minha mãe disse que acontece a fantasmas, demônios e afins. Ele fez menção de sair, mas minhas palavras o detiveram e ele riu. "O que é que vai receber?", diz ele pegando minhas últimas palavras. "Ora, vigor para viver o tempo que Deus ou o diabo deixar; e enquanto viver, eis aqui, meu jovem, o meu presente." Dizendo isso ele põe uma coisa em minha mão, mas não pude ver o que era porque ainda estava escuro; e quando olhei de novo ele já tinha ido.
Quando o dia raiou, apressei-me a olhar o presente. Era um naco de pão seco...